MORADORES DENUNCIAM QUE BARRO DE MINERAÇÃO ATINGIU NASCENTE E DEIXOU RESERVATÓRIOS DE ÁGUA TOMADOS PELA LAMA EM MARIA COELHO
O que deveria ser apenas uma operação para escoar a água da chuva acabou se transformando em uma situação de revolta e preocupação ambiental na região de Maria Coelho, zona rural de Corumbá.
Moradores denunciam que uma intervenção realizada por um operador de máquinas em uma estrada de acesso à área de mineração provocou o desvio de uma grande quantidade de água misturada com barro e sedimentos de minério diretamente para a nascente de um córrego utilizado por diversas famílias da região.
O episódio aconteceu na manhã desta quinta-feira (29), depois de uma noite de chuva.
Segundo os relatos, aproximadamente 300 a 400 metros depois da portaria de acesso à mina, um tratorista teria realizado uma abertura na leira lateral de contenção da estrada, estrutura normalmente utilizada para direcionar o escoamento da água da chuva.
A intervenção, entretanto, teria sido feita de maneira inadequada. Em vez de direcionar a água para um sistema seguro de drenagem, o volume acumulado na estrada acabou sendo despejado diretamente na região onde está localizada a nascente.
O resultado foi uma enxurrada de água avermelhada, carregada de barro e sedimentos provenientes da área de mineração, que desceu pelo córrego e atingiu propriedades rurais e balneários.
UMA NASCENTE QUE ABASTECE FAMÍLIAS
A situação é ainda mais preocupante porque, conforme os moradores, essa nascente é utilizada há anos por famílias, sitiantes e estabelecimentos da região.
É dessa água que muitos retiram o abastecimento para beber, cozinhar, tomar banho, cuidar dos animais, irrigar hortas e manter suas propriedades.
Com a chegada da enxurrada, a água ficou completamente avermelhada. Balneários tiveram suas piscinas tomadas pela água barrenta, enquanto reservatórios utilizados pelas famílias também foram atingidos.
Em uma das propriedades visitadas pela reportagem, dois reservatórios, cada um com capacidade para 20 mil litros, totalizando 40 mil litros, foram tomados pelo barro.
A água chega às caixas por gravidade. O que antes era uma fonte de abastecimento passou a representar um problema imediato para os moradores, que ficaram sem condições de utilizar a água armazenada.
MORADORES TIVERAM QUE LIMPAR AS PRÓPRIAS CAIXAS
Durante nossa visita ao local, encontramos moradores dentro dos próprios reservatórios, realizando a retirada manual de todo o barro acumulado.
A situação demonstra a dimensão do problema enfrentado pelas famílias.
Segundo os relatos, a empresa responsável pela atividade foi procurada e teria informado que providenciaria a limpeza dos reservatórios somente no dia seguinte.
A resposta provocou indignação.
Afinal, como esperar até o dia seguinte quando uma família está sem água para beber, cozinhar, tomar banho e realizar as necessidades mais básicas do cotidiano?
Os moradores não poderiam simplesmente esperar. Por isso, começaram eles mesmos o trabalho de limpeza, retirando a lama de dentro das caixas.
E OS POSSÍVEIS DANOS AMBIENTAIS?
A preocupação não se limita à aparência da água.
A região de Corumbá possui atividades de mineração de ferro e manganês. Esses minerais e os sedimentos associados podem conter diferentes elementos químicos, cuja presença e concentração precisam ser determinadas por análises laboratoriais.
Não é possível afirmar, apenas pela coloração avermelhada, que a água esteja contaminada por chumbo ou outros metais pesados. Mas é indispensável que sejam coletadas amostras e realizados exames físico-químicos e microbiológicos para identificar a real condição da água.
Afinal, estamos falando de uma nascente utilizada para abastecimento humano.
MINISTÉRIO PÚBLICO E AUTORIDADES FORAM ACIONADOS
Diante da gravidade da situação, moradores informaram que acionaram o Ministério Público, a Polícia Federal e a Polícia Militar Ambiental, solicitando que as autoridades compareçam ao local, verifiquem os danos e adotem as providências cabíveis.
A reportagem esteve pessoalmente na região, registrou as condições dos reservatórios, acompanhou a retirada do barro e ouviu moradores que relatam os prejuízos provocados pelo episódio.
A água avermelhada ainda continuava descendo pelo córrego no final da tarde desta quinta-feira. Ou seja, mesmo horas depois do ocorrido, o problema permanecia visível.
A empresa LHG Mining, responsável pelas operações de mineração na região, é citada pelos moradores como responsável pela atividade que teria provocado o desvio da água.
A PERGUNTA QUE FICA É, QUEM VAI RESPONDER POR ESSE PREJUÍZO?
Não se trata apenas de uma estrada com água da chuva. Não se trata apenas de barro espalhado pelo caminho.
Estamos falando de uma nascente, de propriedades rurais, de famílias que dependem dessa água e de estabelecimentos que tiveram suas piscinas comprometidas.
Se confirmada a relação entre a intervenção realizada e os danos relatados, será necessário apurar as responsabilidades e as medidas de reparação.
Os moradores classificam o episódio como um crime ambiental e cobram providências urgentes.
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